
Necrochorume: o perigo tóxico subterrâneo que contamina solo e água, ameaçando a Saúde Pública

O Necrochorume, um termo pouco conhecido, mas de grande impacto ambiental e sanitário, vem ganhando destaque nas discussões sobre a gestão de cemitérios.
Trata-se do líquido gerado pela decomposição de cadáveres, carregado de substâncias tóxicas que podem infiltrar-se no solo e contaminar lençóis freáticos, representando um sério risco à saúde pública e ao meio ambiente.
A toxicidade dessas substâncias, liberadas durante o processo natural de putrefação, exige atenção especial de profissionais da química e órgãos ambientais. A falta de gerenciamento adequado e as condições irregulares de muitos cemitérios agravam o problema, conforme apontam estudos recentes e debates promovidos por conselhos regionais de química.

Diante da gravidade e dos riscos associados ao Necrochorume, o tema torna-se pauta urgente para a busca de soluções eficazes. Este material visa esclarecer a natureza desse contaminante, seus efeitos e as medidas necessárias para mitigar seus perigos, conforme informações divulgadas pelo Conselho Regional de Química da 4ª Região (CRQ IV) e pesquisas científicas.

Composição perigosa: O que é o Necrochorume?
O Necrochorume, também conhecido na medicina legal como liquame funerário ou putrelagem, é um líquido escuro e de odor forte, resultante da decomposição de corpos. Segundo o professor Dr. Francisco Carlos da Silva, sua composição é alarmante: 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas altamente tóxicas, como a putrecina e a cadaverina.
Essas substâncias, quando em contato com o solo, podem percorrer longas distâncias. Em áreas com solo arenoso, a infiltração para o aquífero freático ocorre com maior facilidade. Por outro lado, solos argilosos tendem a reter mais o líquido, o que pode, paradoxalmente, conservar os corpos por mais tempo, aumentando a concentração do Necrochorume.

Riscos à saúde pública e ao meio ambiente
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em relatório de 1998, já alertava para os riscos que os cemitérios representam à saúde pública e ao meio ambiente, evidenciando a presença de bactérias e poluentes originários dos túmulos. No Brasil, pesquisas desde a década de 1970 têm demonstrado os impactos negativos dessas áreas.
Estudos, como o realizado pelo engenheiro ambiental Leonardo Augusto de Carvalho, da Universidade Federal de Juiz de Fora, indicam que pessoas residentes ou que trabalham próximas a cemitérios podem ser expostas a doenças causadas por bactérias e vírus presentes na água contaminada pelo Necrochorume. A contaminação de fontes de água potável é um dos maiores temores.

O químico Juliano Andrade, diretor executivo da Oxi Ambiental, destaca que 75% das áreas de cemitérios centenários no Brasil possuem contaminação de alta complexidade proveniente do contato com o Necrochorume. A falta de fiscalização e planejamento urbano adequado em muitas cidades brasileiras agrava essa situação crítica.
Estudos e soluções para o controle do Necrochorume
A pesquisa do professor Dr. Francisco Carlos da Silva no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Piedade (SP), utilizou técnicas geofísicas e análises químicas para avaliar a presença de metais potencialmente tóxicos no solo. Os resultados confirmaram um incremento desses metais, especialmente nas profundidades abaixo das sepulturas (1,5 a 3 metros), indicando um solo não propício para sepultamento e risco de contaminação.
Silva ressalta a importância de estudos geotécnicos, geofísicos e hidrogeológicos antes da implantação de cemitérios. Esses estudos são essenciais para identificar e mitigar os potenciais danos ambientais, prevenindo problemas de saúde pública e ambientais a longo prazo, incluindo a absorção de metais tóxicos por vegetais irrigados com água contaminada.

Existem diversos procedimentos para o tratamento do Necrochorume, como pastilhas bacterianas, tubos coletores, manta absorvente e fitorremediação. No entanto, o professor Francisco Carlos da Silva aponta que os processos químicos oferecem a maior eficácia no tratamento. Empresas especializadas, como a Oxi Ambiental, desenvolvem tecnologias para a remoção de odor, bactérias, carga orgânica e metais pesados, demonstrando avanços significativos no controle dessa contaminação.
“A decomposição de um cadáver dá origem a um líquido conhecido como necrochorume – composto viscoso de cor acinzentada eliminado durante o primeiro ano após o sepultamento, formado por 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas, sendo duas delas altamente tóxicas: a putrescina e a cadaverina. O necrochorume é facilmente “dissolvido” em água, representando um meio ideal para a proliferação de doenças infecto-contagiosas. Devido à ação das águas superficiais e das chuvas infiltradas nas sepulturas, ou pelo contato dos corpos com as águas subterrâneas, o necrochorume pode atingir e contaminar estas águas há milhares de anos e/ou a quilômetros de distância. Se as mesmas fluírem para a área externa do cemitério e forem captadas através de poços escavados por populações que vivem no entorno, estas poderão correr sérios riscos de saúde. Desta forma, as preocupações com a implantação, localização e operação de cemitérios se fazem necessárias para que não ocorram problemas sérios de contaminação de mananciais de abastecimento, evitando assim efeitos nocivos à população. Conforme legislação, alguns elementos de projeto devem ser observados: localização, acesso e sistema viário, ocupação e benfeitorias no entorno, cobertura vegetal, hidrografia, sondagem mecânica para caracterização do subsolo. Para os cemitérios verticais, a legislação atenta quanto à constituição dos lóculos: materiais que impeçam a passagem gasosa para os locais de circulação dos visitantes e trabalhadores; materiais com características construtivas que impeçam o vazamento do necrochorume; dispositivo que permita a troca gasosa proporcionando condições adequadas para a decomposição dos corpos; tratamento ambientalmente adequado dos efluentes gasosos.” Tema: Resíduos Sólidos Titulo: CEMITÉRIOS: UMA AMEAÇA À SAÚDE HUMANA? Enga Sanit. Roberta Maas dos Anjos roberta@casan.com.br








